CICATRIZ

Não sei exatamente qual era a minha idade. Era criança ainda, e criança não se apega a essa coisa de tempo e de idade. E era um final de tarde e começo de noite. Escurecendo.

            Não sei se era uma visita de rotina entre parentes, mas estava na casa da sogra de um dos meus tios. Além de mim, meus dois irmãos e minhas três primas, filhas daquele tio.

            Enquanto os adultos conversavam na sala, as crianças, como acontecia antigamente, brincavam entre si. Sem celular. Sem mini game. Isso nem existia ainda.

            A certa altura das brincadeiras, uma criança começa a correr, no velho estilo pega-pega. E foi aí, no corredor externo da casa, que o acidente aconteceu.

Do rol de entrada na sala para o corredor lateral da casa havia dois degraus. Eu, na pressa de fugir na brincadeira de ser pego, tropeço nos degraus e caio “de cara” no registro de água que ficava próximo. O registro trazia aquele hidrômetro característico e uma torneira que abria e fechava a vazão de água. Acontece que a torneira não tinha aquela aba, também chamada de borboleta, e só tinha a haste.    

E foi exatamente ali, na ponta da haste da torneira que eu bati. Se tivesse mirado para acertar aquela parte do registro, provavelmente não teria conseguido! No meu rosto, bem no meio das sobrancelhas, abriu-se um corte que jorrava sangue abundante.

A visita acabou ali, com a minha ida para o hospital e os cuidados decorrentes. Pela primeira vez, eu estava “levando pontos”, dada a localização e o tamanho do ferimento.

Lembro-me de ouvir os adultos, já não me lembro quais, dizerem que eu tinha tido muita sorte, pois um pouco mais para um dos lados, e eu teria ficado cego de um olho.

No local do ferimento ficou uma cicatriz, que me deixou com “cara de bravo”. Aquele aspecto franzido do cenho, fruto da lesão consertada. Confesso que às vezes me aproveitei desse aspecto de bravo que a cicatriz deixou. Como uma forma de defesa em momentos de confronto. Mas foram poucas. Tive muita sorte também de cruzar com poucos “espíritos de porco” no caminho.

Eu poderia romantizar a sorte de ter sido no meio das sobrancelhas e não ter ferido um dos olhos. Poderia apelar a explicações da existência de planos maiores para mim nessa caminhada chamada de vida. Mas me limito a dizer que a cicatriz faz parte de quem sou. Com cara de bravo, mas poucas vezes realmente irado. Não que eu seja muito pacífico. Deveria, mas não sou.

Fazendo uso consciente da cicatriz, posso dizer que quando sou bom, eu sou mais ou menos; mas quando aproveito minha cara de bravo, mesmo sem ser, sou melhor ainda.